Não é bem assim
A vida urbana não é só confusão e desconforto

Meu bairro tem céu azul. Muito azul! Nele, periquitos em bando fazem a maior algazarra, brincando o tempo todo, soltos. Bem-te-vis anunciam que bem viram algo, pardais sempre alegres procuram bichinhos pelas frestas do piso e sabiás pulam pelos canteiros e calçadas, com cara de bravos (não sei o porquê, mas sempre achei que sabiá tem cara de bravo, mas é lindo assim mesmo).
Em meu bairro, o moço da banca de revista, a moça do café, o rapaz da padaria e o vigia noturno conhecem as pessoas pelo nome. As pessoas e os cachorros, que parecem não ser só de seus donos, mas mascotes da rua toda. E haja cafuné! Em meu bairro há um supermercado bonito e tranquilo, que recebe luz natural, assim como recebe bem os clientes com música suave – ainda existem lugares em que o cliente é bem atendido. Famílias saem juntas deles, a pé, com suas sacolas ecológicas (agorasomos obrigados a usá-las), curtindo o caminho para casa. As compras viram passeios.

Em meu bairro há senhoras fazendo ginástica na manhã fresca e ensolarada, sob um céu azul que vem te dar bom dia. Depois, tomam água de coco tirada na hora, animadas, pondo a conversa em dia. Em meu bairro, podemos caminhar de dia e à noite, ainda tranquilos. Há vilas com sobradinhos coloridos e floridos, com cachorro brincando na garagem ou espreguiçando-se ao sol.
Em meu bairro há pracinhas com grandes árvores, sob as quais crianças brincam nos parquinhos. Outras (ou as mesmas) ouvindo os contadores de histórias. Há jovens jogando vôlei nas quadras, suando e rindo. Há feiras no meio da rua, naquele velho estilo de “mulher bonita não paga, mas também não leva”. Com pastel, caldo de cana e tudo. Há gente bonita indo para o trabalho com a sacolinha de papel com pão de queijo e copinho de isopor com café para viagem. Há o rapaz da bicicleta com uma cesta de padeiro na frente, com sua buzina de borracha chamando lá de dentro de casa gente que quer pão quentinho para o café.
A propósito, este meu bairro fica na maior cidade do País, injustamente famosa por só ter concreto, asfalto, poluição, violência e barulho. E isso não é no subúrbio. É a menos de cinco minutos do centro. É verdade que essas coisas lamentáveis existem, também. Infelizmente, é a realidade de muitos lugares urbe afora. Felizmente, há pessoas e lugares que teimam em perseguir (e conseguir) uma coisinha meio esquecida ultimamente, chamada qualidade de vida.
Há coisas ruins. Mas erra quem acha que é só isso.
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